terça-feira, 24 de março de 2009

Recuo Nostágilco - Felippe D'Oliveira

As imagens recalcadas,
- as Belas-Adormecidas -
despertam por si mesmas
e irisam o consciente
que é um vestido de Loi Fuller dançando.

O pano branco pintado por todas
as tintas da lembrança
suprime o tempo, anula o espaço:
o céu antigo é presente
a terra distante renasce e cresce
à boca de túnel para onde corre
vertiginosa a recordação.

Volto a querência.
Dentro do sonho acordado,
O chão dispara ondulos,
arrastando na vaga verde da coxilha,
como grandes algas acolmeiadas,
as ilhas mais verdes dos capões redondos.

Na crista da onda maior,
à sombra da figueira brava,
ao lado mangueira grande,
a casa velha da estância
abre o sorriso das dez janelas.

E em torno é mundo,
o mundo imenso que acaba longe,
por trás da serra quase já quase céu de tão azul,
o mundo enfeitado de vidrilhos suspensos
nos treme-tremes dos potreiros;
enfeitado de sangas com olhos-d'água
refrescando as folhas grossas dos inhames
entre barrancas de avencas e de musgos;
enfeitado de pomares agrestes onde o sol
se condensa na casca amarela do bacuparis,
dos ariticuns, das guabirovas e das vergamotas;
enfeitados de jardins que ninguém plantou
e que sep erfumam a espinilho,
a jasmim-manga, a flor de trevo;
enfeitado com o vulto do umbu solitário,
insígnia de hospitalidade e proteção,
casa sem muro dos fatigados,
árvore das árvores, rica de fronde, fecunda em abrigo.

Em torno é esse, mundo. E sobre ele,
enchendo o céu alto com suas formas sonoras,
todos os ecos que afirmam a vida de força e anseio:
a cadência das falas, musicando a língua
com entonações novas, mais lentas, mais claras;
o estridor dos ferros belicosos, em façanhas
heróicas de reencontro e entreveros que
puxaram a ponta da pátria até a ponta do pampa;
o tropel das patas das cavalhadas soltas;
o entrechoque dos cornos, os mugidos roucos,
a algazarra da faina rude, nos rodeios;
o silvar das boleadeiras, nos tiros certos;
o zunido dos laços,nos pealos de cucharra;
o tinir de chilenas arrastadas;
o tilintar das pratarias dos aperos;
o rascar dos arados e das charruas;
o rinchar das carretas transbordando
a fartura das safras;
a exclamação alarmada dos quero-queros;
o grito perdido do tajá, vincando
a madre-pérola da tarde;
o ruflar das codornas estirando voos horizontais;
o compasso das polcas nos fandangos;
o vozerio da peonada nos galpões, contando
causos à luz das brasas
e mais longo, na respiração verde dos pastos,
o gemido das gaitas que as vozes agravam
com o queixume das chimarritas e dos boi-barroso...

Recordação,
vela que acendo ao Negrinho do Pastoreio
e que me dá de novo o meu pago perdido

2 comentários:

  1. Olá,parabéns pela sua iniciativa...
    beijos..
    MARTA

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  2. oi colega,
    muit bonita a poesia que vc escolheu.
    visite o meu também e deixe sugestões.

    bjus Luana Iensen
    alinguadeluana.blogspot.com

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